O amor… a espera

"Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.
-Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão gastas pelo relógio
e pelas luas e pelos olhos de quem espera em vão.
De mim podia falar-te, mas não sei que dizer-te desta história
de maneira que te pareça natural a minha voz.
Só sei que passo aqui a tarde inteira tecendo estes versos
e a noite que te há-de trazer e nos há-de de deixar sós ."

Eugénio de Andrade

Aguarela da alma

Eles passavam abraçados, todos os dias, à mesma hora.
Ele ia esperá-la ao emprego e levá-la a casa, talvez. Paravam na rua que ali entroncava e então, só ela seguia. Talvez não pudesse levá-la mesmo à porta!
As pessoas que passavam, fingiam não ver os seus beijos, os seus abraços. Parecia que se despediam por muito tempo, que se preparavam para uma longa separação.
E todos os dias se revezavam no último adeus... olhando sempre algumas vezes para trás.
Uns, concluíam que se namoravam às escondidas... "que disparate, nos tempos que correm já os jovens fazem tudo o que querem!", exclamavam outros. "Talvez a família dela seja rica e a dele pobre!" "Talvez um deles seja casado!"
Talvez... talvez... talvez...
Ele voltava pelo mesmo caminho e dobrava a esquina de cabeça baixa. Já não sorria, como quando ia ao lado dela. Dava largas passadas e ia de olhos no chão.
Ela apressava o passo e desaparecia entre as pessoas que o túnel do Metro ia engolindo.
Um dia, não apareceram. Talvez se tivessem atrasado. Talvez estivessem de férias. Talvez mudassem de casa. E não voltaram. Nem mais cedo, nem mais tarde. Nem nunca mais. Talvez tivessem casado.
Ou acabara o amor?
As suas despedidas mostravam que o amor crescia na mesma proporção em que aumentava a angústia da separação.
Seria essa separação já adivinhada?

Fernando Pessoa

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa as dores nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela não pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.


Ricardo Reis

olhar a lua



Olha a Lua como está bela no seu manto de fase plena!
Como inspira os poetas, comove os românticos, incendeia os amantes!
Esplendorosa no longo véu de alvo tule, enche o espaço de romance e de mistério.
No entanto, todos sabem que aquele brilho não lhe pertence... ela apenas reflecte a luz do Sol.
Vê como apesar de tão bela, continua só no imenso firmamento.

em nome do amor

De todos os sentimentos, o mais falsamente usado é o amor.
Em nome do amor, mata-se. Em nome do amor, mente-se. Em nome do amor, agride-se.
E atrás dele esconde-se o egoísmo, o orgulho, a cobardia.
O amor é usado para justificar, para cobrar, para exigir, para subjugar, para torturar, para pedir. Dizem que amam e por isso ludibriam, escondem, fingem, com medo de perder o objecto do seu amor...
Dizem que amam e de tanto quererem quem amam, enganam, maltratam, humilham.
Dizem que amam, mas a quem amam... não é mais do que a si mesmos.
O amor está, no entanto, bem distante de quem pede. Não pede, dá.
Ele é impaciente para se entregar, persistente em se oferecer, inconsequente em tentar, corajoso para conseguir, incansável em lutar.
Tudo justificam com o amor.
O amor tem as costas largas.