Aguarela da alma

Eles passavam abraçados, todos os dias, à mesma hora.
Ele ia esperá-la ao emprego e levá-la a casa, talvez. Paravam na rua que ali entroncava e então, só ela seguia. Talvez não pudesse levá-la mesmo à porta!
As pessoas que passavam, fingiam não ver os seus beijos, os seus abraços. Parecia que se despediam por muito tempo, que se preparavam para uma longa separação.
E todos os dias se revezavam no último adeus... olhando sempre algumas vezes para trás.
Uns, concluíam que se namoravam às escondidas... "que disparate, nos tempos que correm já os jovens fazem tudo o que querem!", exclamavam outros. "Talvez a família dela seja rica e a dele pobre!" "Talvez um deles seja casado!"
Talvez... talvez... talvez...
Ele voltava pelo mesmo caminho e dobrava a esquina de cabeça baixa. Já não sorria, como quando ia ao lado dela. Dava largas passadas e ia de olhos no chão.
Ela apressava o passo e desaparecia entre as pessoas que o túnel do Metro ia engolindo.
Um dia, não apareceram. Talvez se tivessem atrasado. Talvez estivessem de férias. Talvez mudassem de casa. E não voltaram. Nem mais cedo, nem mais tarde. Nem nunca mais. Talvez tivessem casado.
Ou acabara o amor?
As suas despedidas mostravam que o amor crescia na mesma proporção em que aumentava a angústia da separação.
Seria essa separação já adivinhada?

1 comment:

nuno medon said...

Olá! Ás vezes, breves separações, fazem bem ao amor, para que ele cresça de dia para dia....mas só em alguns casos. Obrigado pelo comentário! beijos. Gostei do texto.